• Conferência de Runas e Espiritualidade Nórdica

Uma Introdução as Runas

Por Marcelo Leal


“Primeiro sentir os símbolos, sentir que os símbolos têm vida e alma, que os símbolos são gente. Mais tarde virá a interpretação, mas, sem esse sentir, a interpretação não vem.”

Fernando Pessoa Nestes últimos anos temos acompanhado um crescimento lento, porém significativo, no interesse pelos mitos e tradições dos povos do Norte. Ele está refletido no lançamento de novos livros, no surgimento de novos grupos de estudos (acadêmicos ou independentes), no crescente movimento religioso reconstrucionista da fé nórdica, como também em inúmeras outras áreas. Nunca se ouviu falar tanto em “mitologia nórdica” como agora. Esse desenvolvimento permitiu as runas, que por um dado período foram ignoradas e/ou vítimas de preconceito (devido a sua antiga associação com a campanha nazista), a ganharem novamente destaque e terem o seu valor sagrado resgatado. As runas são antigos símbolos que compunham os primeiros alfabetos germânicos. São inicialmente caracteres angulares (sem linhas horizontais ou curvas) com uma característica bastante peculiar: possuíam tanto um valor gráfico e fonético, quanto simbólico – o que as difere de nosso, e muitos outros, sistema de escrita. Além de letras, definição primária e consensual as mais diversas linhas de pesquisa, as runas também podem ser percebidas como símbolos, arquétipos ou ainda, espíritos. Como cada experiência é única, os mais diversos estudantes deste sistema o vêem e o compreendem de uma forma própria, distinta. Talvez, para os povos antigos, as runas fossem um misto de todos estes elementos: o espírito de um arquétipo, codificado num símbolo, dotado de um valor fonético. Independentemente de seu significado original, as runas hoje podem facilmente serem interpretadas sob várias perspectivas não excludentes. Elas são mistérios ocultos por metáforas e enigmas, são símbolos arquetípicos, espíritos sagrados que usam de uma linguagem sutil, despertando em seus amantes uma percepção instintiva e intuitiva. Como quase tudo no tocante as runas, suas origens e significados são incertos. Estudos apontam que todos os prováveis radicais da palavra “runa” estão associados a “mistério”, “sussurro”, “segredo”, o que nos sugere a ideia de um conhecimento sagrado transmitido oralmente, talvez em uma iniciação, embora os historiadores acadêmicos neguem veementemente esta última possibilidade. Elas povoaram quase que a toda a antiga Europa (mais evidentemente ao norte) e foram utilizadas das mais diferentes e múltiplas formas pelos antigos povos germânicos. Por meio de evidências (antigos artefatos) sabemos que eles as entalhavam de forma costumeira. Elas foram encontradas gravadas em lanças, espadas e escudos, também em pentes, caixas, chifres e pedras. O historiador romano Tacitus, em sua obra Germania, relata como um homem cortava o galho de uma árvore para entalhar símbolos (que se supõe ser runas), e as lançava em um pano branco, em uma previsão. “Nenhum outro povo leva mais a sério os augures e as adivinhações. A prática de tirar as sortes é simples: dividem um ramo de árvore frutífera em pequenos pedaços que, depois de marcados com certos sinais, são lançados a esmo sobre uma veste branca. A seguir, o sacerdote da cidade, se se trata de negócio público, ou o pai de família, se se trata de assunto doméstico, após haver deprecado os deuses, erguendo os olhos ao céu, toma de três fragmentos da haste, um de cada vez, e faz a interpretação de acordo com os sinais previamente impressos. Se as decisões são contrárias aos que se esperava, naquele dia não se realizam mais consultas a respeito. Se, porém, são favoráveis, requer-se a confirmação dos auspícios. É uso ali, também, consultar-se o canto e o vôo das aves.” Germânia, Caio Cornélio Tácito Tradução de Sadi Garibaldi. Rio de Janeiro: Editora Livraria Para Todos, 1943 Portanto podemos observar que, além de serem entalhadas em objetos – provavelmente a fim de lhes conferir algum poder (o que as atribui um caráter mágico) – as runas também foram utilizadas como um instrumento divinatório, profético. Foram também amplamente utilizadas para registros solenes em pedras. Somente na Dinamarca são encontradas cerca de 250 inscrições, enquanto estima-se que haja um total aproximado de 3.000 pedras rúnicas (runestones) e mais de 6.000 inscrições entre pedras e objetos distribuídas pelo Velho Continente. Contudo, as runas a princípio não foram utilizadas para registro de forma sistemática – não por serem inapropriadas, mas devido principalmente à forma oral pela qual o conhecimento era transmitido dentro da sociedade. Não havia o costume de se escrever em suportes longos, como manuscritos e livros, costume este que surgiu somente quando da chegada dos monges e intelectuais após a Era Viking – as próprias sagas são um exemplo disto: contos baseados na oralidade dos tempos pagãos, mas preservados num suporte como o  papel.

0 visualização

@2019 Conferência de Runas e Espiritualidade Nórdica

  • Facebook Classic
  • Instagram ícone social
  • YouTube ícone social
  • Deezer ícone social