• Conferência de Runas e Espiritualidade Nórdica

30 semanas com Freyja - Semana 4: Mitos

Por Ligia Ramos


Freya e o colar dos anões

Freya era uma bela deusa oriunda do país dos Vanir, que chegara junto com seu irmão Freyr a Asgard, onde viviam os deuses dominantes do panteão nórdico, liderados pelo poderoso Odin. Apesar de ser uma estranha e pertencer a uma raça divina considerada inferior, Freya não demorara a conquistar a admiração de todos graças à sua beleza e seu provocante charme. Bem pouco tímida, a encantadora deusa podia ser considerada a equivalente nórdica de Vênus, a deusa do amor grego; tal como esta, também não tinha muitos escrúpulos de ordem moral, o que lhe permitia estar sempre envolvida em muitas aventuras, na maioria das vezes com deuses - o que não a impedia, entretanto, de frequentar de vez em quando outra classe de seres.


A mais sensual das deusas morava no palácio Sessrymnir, que os deuses haviam lhe presenteado, o qual era tão bem protegido que ninguém, a não ser a própria Freya, detinha as suas chaves. Sua carruagem finíssima era puxada por alvíssimos gatos da cor da neve, tão alvos que ao se observar à distância a carruagem a deslizar por um campo nevado, tinha-se a nítida impressão de que ela se movia sozinha, ou pelo menos, de que era puxada por um pequeno bando espectral de olhos oblíquos e esverdeados.

Freya, como todas as mulheres belas, tinha uma vaidade pronunciada, e seu xodó particular era um maravilhoso casaco feito de pele de gavião, com o qual podia voar livremente pelo mundo, disfarçada desta ave. Naturalmente, também apreciava toda a espécie de jóias e enfeites, chegando a perder a cabeça quando enxergava uma nova peça, a qual sempre lhe parecia mais bela que as anteriores. E foi justamente por causa de uma jóia - a mais encantadora de quantas já houve neste mundo - que se originou a história de Freya e seu colar, que tanto rebuliço provocaria entre os deuses.

Uma vez, a deusa, que preferia dar os seus passeios à noite, havia vestido casaco mágico e sobrevoava o mundo em busca de um pouco de amor e prazer, quando, já ao retornar para casa, teve sua atenção atraída pela luz ofuscante que saía de uma caverna. Era a forja dos Brisings, anões artífices que se dedicavam a confeccionar as mais belas jóias do universo. Curiosa, ela resolveu ir dar uma espiada. Pé ante pé (já havia retomado sua forma maravilhosamente feminina), ela foi adentrando a caverna. O clarão do fogo iluminava o interior com um relâmpago amarelado, que lançava sobre as paredes as silhuetas pequenas e atarefadas dos quatro anões.

- Está quase pronto, irmãos! - disse uma vozinha meio fanha.

Os outros três acorreram logo até onde estava o primeiro.

- Sim, o fecho está perfeito! - exclamou o segundo.

- E as jóias, perfeitamente engastadas! - elogiou o terceiro.

- Jamais se viu um colar tão lindo! - disse, por último, o quarto, aplaudindo a obra-prima com entusiasmo.

Freya, que escutava tudo atentamente, perdeu a fala. - "Que colar magnífico será este?", pensou, roendo as unhas.

Freya foi avançando mais e mais, cosida à sua própria sombra na parede, até que finalmente pôde divisar o colar, que havia sido colocado, cuidadosamente, sobre uma mesa. Deixando, então, de lado toda precaução, Freya lançou um grito de admiração: - Oh, não pode ser verdade o que meus olhos vêem! -exclamou, quase perdendo os sentidos.

Os quatro anões tomaram um susto tão grande que suas pequeninas sombras saltitaram nas paredes. - Quem é você? - disse o anão um.

- Ora, não a está reconhecendo? - disse o anão dois.

O anão três adiantou-se, então, e disse: - Seja muito bem-vinda por aqui, adorável Freya!

- Saiba que esta é uma honra gigantesca para nós! - disse o anão quatro,

que amava os superlativos.

Mas a deusa nada respondia: seus olhos percorriam de ponta à ponta o colar de sonho, que poderia levar, tranquilamente, qualquer mulher ao crime e mesmo ao assassinato. Pedras preciosas, que pareciam pequenas gemas de um fogo cristalino e liquefeito, estavam perfeitamente engastadas numa armação originalíssima feita de um metal, que o olho mais atilado não seria capaz de definir se era de puríssimo ouro ou da prata mais fina, tal a facilidade com que seu aspecto se intercambiava. - Não, isto não existe!... - dizia Freya, boquiaberta.


Era tal o interesse que parecia demonstrar pela mais encantadora das jóias que todos os seus sentidos estavam entregues ao jogo prazeroso de absorver aquela estonteante criação. A deusa podia não somente ver o colar, como também cheirá-lo - sim, seu metal possuía um odor gélido e refrescante, enquanto que suas pedras, cada qual mais faiscante que a outra, possuíam aromas que superavam infinitamente ao da mais exótica especiaria ou do mais inebriante perfume. Ela podia também sentir o próprio gosto da jóia, cem vezes melhor do que do próprio hidromel, a bebida dos deuses. Mesmo sem tocá-lo, ela já podia sentir o contorno da armação e o volume das pedras, pressionando a polpa dos seus dedos, e o mais estranho: podia escutar um ruído, perfeitamente audível, que emanava da preciosidade como se fosse uma música, uma pequena sinfonia executada pelos metais e minerais coligados, mas que nada tinha a ver com nossas enfadonhas composições artísticas. Na verdade nem ela própria, que era uma deusa, tinha a menor condição de explicar.

Freya teria ficado ainda muito tempo fascinada pela jóia, se os anões não a tivessem despertado de sua admiração hipnótica.

- Vamos deusa, acorde! - gritava o anão três, saltitando ao seu redor como uma pequenina bola dotada de braços.

Muito a custo, Freya despertou de seu sono estético. - Oh, anões maravilhosos!... - disse ela, com os olhos ardendo em súplica. - Eu o quero...! Quero mais que tudo neste mundo!

Os quatro anões ergueram suas cabeças, apontando seus narizes escarlates para ela (todos os anões, na verdade, têm os narizes vermelhos ou inchados; mas, ao contrário do que possa se pensar, não os têm por abusar da bebida, mas por causa de uma pequenina vela, que, geralmente, trazem pendente sobre a cabeça para suas expedições dentro das cavernas. Como é sabido, são eméritos minera-dores e, de tanto receberem as gotas eventuais da cera derretida sobre seus protuberantes narizes - anões são geralmente narigudos -, estão sempre com o aspecto de quem está embriagado ou simplesmente gripado).

Freya, ao vê-los todos com os narizes eretos apontados para ela, tomou um ligeiro susto. - Ui! O que foi caros Brisings? - disse ela, acariciando suas cabeças. - Não cometerão a terrível deselegância de me negar este presentinho, não é mesmo?

- Rrrrum-rum-rum!... - começaram os quatro a fazer ao mesmo tempo, porém, de maneira desencontrada, o que era a sua maneira de expressar uma dúvida atroz.

Então, o anão um tomou o anão dois pela parte traseira do gibãozinho esverdeado e o arrastou até o fundo da caverna. O anão dois, tão logo sentiu que o agarravam, atracou-se à parte traseira do gibãozinho do anão três e fez o mesmo, de tal modo que, sendo levado, também levava. O anão três fez a mesma coisa ao anão quatro e este, não podendo fazer outra coisa, cruzou os braços e se deixou levar. Assim encadeados, foram os quatro de marcha a ré até o canto mais afastado da apertada forja, onde se puseram a confabular miudamente.

- Irmãos - disse o anão um, com o semblante solene. - Ou muito estou enganado, ou chegou a nossa vez de provar também das delícias dos braços de Freya (anões nunca empregam outro eufemismo quando querem se referir aos jogos do amor).

- Nós... e Freya? - perguntou o anão dois, completamente atônito.

- Um de cada vez, é claro...! - especificou o anão um, pois estes seres são geralmente castos e detestam promiscuidade.

- Em troca do colar?... - quis saber o anão três.

- Lógico, idiota! - respondeu o anão um. - Seus braços não valem, cnlão, dez colares iguais a este?

- Sim, e além do mais poderemos fazer muitos outros, ainda que dificilmente os igualemos ao Brisingamen. - O anão quatro referia-se ao colar, que recebera esta denominação.

Freya estava entregue, outra vez, à contemplação de sua adorada jóia. Os anões, que não eram nada estúpidos, perceberam, claramente, que, se lhe negas sem a posse do colar, ela daria um jeito de levá-lo de qualquer maneira, de tal modo que, ao fim e ao cabo, acabariam por ficar sem o colar e sem o seu lindo pescoço - ou antes, sem os seus lindos braços.

O anão um veio à frente dos quatro e pronunciou o veredicto: - Muito bom, adorável Freya, o colar será seu... - A deusa deu um pulo de satisfação tão alto que quase bateu com a cabeça no teto da caverna. - Mas espere! - disse o anão porta-voz. - Somente será seu se...

- Sim, diga e eu farei qualquer coisa!

- Qualquer coisa mesmo?

- Sim, sim, qualquer coisa!

Então, os quatro anões apontaram outra vez os seus protuberantes narizes para ela e todos disseram a uma só voz: - Queremos gozar das delícias dos seus braços, eis o que é! - Freya levou algum tempo para entender, mas quando, finalmente, o fez deu uma sonora gargalhada. - Eu... e vocês! - disse ela, muito divertida.

- Um de cada vez, é claro... - disse o anão um, meio desenxabido.

- Por que ela está rindo? - disse o anão quatro, que tinha uma suscetibilidade inversa ao seu tamanho.

- Bem - disse a deusa, tentando conter o riso -, vocês compreendem, eu nunca fiz antes com um... bem, com um... com um de vocês.

- Sabemos que nunca fez com nenhum de nós — disse o anão três, que não era lá muito inteligente.

- Não, quero dizer, com um de sua espécie - completou a deusa, enquanto os estudava detidamente.

Todos os quatro sentiram-se, então, observados da sola dos pés ao último fio de cabelo - o que não podia demorar muito, afinal. Desta análise, dependia o resultado do negócio, que prometia ser altamente rendoso para ambas as partes. Depois de algum tempo - e de algumas olhadelas cobiçosas lançadas para o magnífico colar -, Freya respirou fundo e, deixando que um grande sorriso aflorasse aos seus lábios, deu enfim a sua resposta: - Trato feito, meus queridos!

Os quatro aplaudiram, sapateando de alegria.

- Então, quem é o primeiro?

Estas repentinas e inesperadas palavras, contudo, deixaram os quatro anões tão profundamente perturbados que trombaram seus narizes uns contra os outros. De repente, o desejo, que antes os assoberbara, parecia haver se convertido em um terrível receio. "Santo deus, quem será o primeiro!", pensaram os quatro, mergulhados em aflição. O anão dois, imediatamente, sugeriu que, pela própria hierarquia numérica, deveria ser, obviamente, o anão um. Este, entretanto, tornando-se branco como a alma dos coelhos, argumentou que não necessariamente; podia ser, perfeitamente, qualquer um deles: o três, por exemplo! Mas, o três tergiversou e passou a bola para o quatro, que teria saído correndo mesmo que tivesse só uma perna, se isto não fosse para si uma tremenda desonra. Então, Freya, percebendo o pudor que se assenhoreava da alma dos pobres anões, resolveu tirar a sorte.

- Deem as mãos e façam um círculo ao meu redor - disse ela, imperativa.

Os quatro, meio sem jeito, fizeram o que ela ordenou e, num instante, estavam de mãos dadas, encerrando-a num minúsculo círculo.

- Agora girem! - disse ela, batendo as palmas.

- Ela está caçoando de nós! - disse o anão quatro, cuja vermelhidão do nariz espalhara-se para o restante do rosto.

- Vamos, girem!

Os quatro anões começaram a rodar em torno de Freya, que fechara os olhos.

- Fechem os olhos também! - disse ela, sentindo um vento cada vez mais forte agitar a parte inferior do seu vestido. - Mais rápido, mais rápido!

Os anões rodavam velozmente como piões encadeados a ponto de suas barbas tornarem-se oblíquas. Freya ergueu sua mão e fê-la descer às cegas.

- Pronto, é este...! - disse ela, agarrando com força um dos anões, para que não houvesse confusão acerca do resultado. Quebrado o elo da cadeia, os outros três saíram rolando pelo chão da caverna, cada qual para um lado, como bolas de boliche dotadas de minúsculos braços e pernas.

O escolhido fora o anão três, o que tergiversara!

Seus irmãos ergueram-se a custo do chão, enquanto o três tresvariava diante de Freya, vendo tudo rodar. Cinco ou seis Freyas misturavam-se à sua frente, mas, pelo menos, aquela excitação toda servira para mexer com seu sangue, pois, tão logo passara a tontura, ele todo empertigou-se e apontando seu adunco nariz para a deusa, disse-lhe num tom de voz que encheu de espanto - e admiração -os outros, que estavam a observá-lo de bico calado: - Vamos, então...?

Dando a mão ao minúsculo amante, Freya retirou-se com ele para o quarto de hóspedes. Os outros três subiram em seus tamboretes e ficaram do alto a balançar nervosamente, as suas perninhas. Um silêncio constrangedor pairava em cada milímetro da apertada caverna.

- Talvez um gole de vinho... - disse o anão um, fazendo menção de buscar a botija.

- Não sei, pode provocar náuseas... - disse o quatro, precavidamente.

Uma porta abriu, de repente, às suas costas:

- Por favor, façam um pouco de barulho; isto servirá para acalmar o seu irmão e a vocês também! - disse Freya, cujos braços já estavam completamente despidos, para utilizar o casto eufemismo dos anões.

Os três anões desceram dos seus assentos e procuraram algo para fazer -algo com bastante ruído. O anão um tomou do martelo e começou a malhar em ferro frio, o dois a lixar um pequeno espadim, enquanto que o quatro, sem saber direito o que fazer, calçara umas botas de ferro tacheadas e andava de lá para cá, batendo os pés com toda a força. Assim, estiveram por um bom tempo até que viram voltar o anão três. Três pares de olhos angustiados fixaram-se no rosto dele, que fazia todo o esforço do mundo para esconder os seus sentimentos.

- O próximo! - disse Freya, cuja voz vinha do interior, fresca e animada. Tomado por um impulso, o anão dois adiantou-se.

- Vou eu - disse ele, meio animado, meio assustado.

A porta fechou-se e isto foi o sinal de rebate para que os demais caíssem sobre o que regressara como águias sobre a presa.

- E então? E então?

- Como foi? Vamos, diga!

- Deu certo?

- Deu errado?

- Não deu?

O anão três, entretanto, permanecia impassível.

- Nada menos que divino - disse ele, após uma longa pausa, empertigando o narigão. - Ao menos comigo.

Uma bazófia...! Um suor frio correu pela espinha dos outros dois. Eles sabiam, perfeitamente, o que significava a bazófia ou a triste vangloria: apenas o emblema de um negro fracasso!

- Ruídos, meus queridos, ruídos! - bradou uma voz lá de dentro.

Os anões voltaram às suas ocupações, procurando fazer o máximo de alarido.

E assim foi com os outros dois - que retornaram também discretamente -até que o anão um, o que ficara por último, finalmente retornou. Todos, agora, entreolhavam-se com um brilho cúmplice no olhar, que compartilhava algum triunfo e, ao mesmo tempo, exigia discrição para alguma pequenina derrota.

Jamais alguém ficou sabendo, exatamente, o que se passou dentro do pequeno e confortável cômodo no famoso dia em que os Brisings desfrutaram dos braços da mais bela das deusas. Sempre que se referiam ao episódio - o que só começaram a fazer muitos anos depois - exaltavam sempre as belezas supremas da deusa, acrescentando o desempenho magnífico que cada qual tivera e quase tornava cada vez mais magnífico a cada nova narrativa a ponto de superar qualquer proeza amorosa conhecida entre os anões e mesmo entre os deuses. Mas podemos ter a certeza que todos tiveram a melhor experiência de suas vidas e que se algum pequenino percalço ocorreu, Freya, a maravilhosa deusa do amor e do prazer, soube contorná-lo perfeitamente (não fosse ela uma profunda conhecedora do assunto!...)

E foi assim que Freya conseguiu apossar-se do Brisingamen, o mais belo colar que olhos humanos e divinos já viram.


Nota pessoal: Sobre os vanir serem de um panteão inferior, bem como questões morais eu falo mais a frente desse desafio.

@2019 Conferência de Runas e Espiritualidade Nórdica

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